sexta-feira, 10 de maio de 2013
quarta-feira, 8 de maio de 2013
O Culto do Senhor Santo Cristo dos Milagres
O culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres tomou impulso a
partir dos séculos XVII e XVIII, dentro dos princípios adoptados pela Igreja
Católica no Concílio de Trento, no sentido da defesa da importância do culto e
da adoração de imagens, um dos princípios de divergência em relação à Reforma
protestante.
Deve-se à irmã Teresa da Anunciada o actual culto ao Senhor
Santo Cristo. Esta religiosa deu entrada no Convento da Esperança no século
XVII, juntamente com uma sua irmã, Joana de Santo António. De origem nobre e de
personalidade forte, a profunda devoção que a irmã Anunciada alimentava, e as
suas características de santidade, fizeram com que fosse comumente tratada como
"Madre", cargo que, na realidade, nunca desempenhou.
Desde que deu entrada no convento, Teresa da Anunciada adoptou
uma atitude de profunda devoção e entrega à antiga imagem do "Ecce
Homo", com a qual estabeleceu uma íntima relação e à qual chamava
carinhosamente de "seu Senhor" e "seu Fidalgo".
As duas irmãs terão tido a sua atenção despertada, e terão
despertado a da população em geral, para o carácter milagroso da imagem. Joana
de Santo António, antes de ser transferida para o Convento de Santo André, terá
alertado nomeadamente para o poder milagroso de uma estampa que cobria a
abertura do peito da imagem.
Teresa da Anunciada não se poupou a esforços para
engrandecer a imagem do "Ecce Homo", apelando à vassalagem e entrega
por parte de todos à mesma. Embora com entraves por parte de uma abadessa do
convento, conseguiu que se erigisse uma capela condigna para a imagem, assim
como que a imagem fosse ornada com todas as insígnias próprias de majestade.
Para esses fins, contou com as esmolas de inúmeros crentes em toda a ilha, do
reino e mesmo das colónias, assim como o apoio da própria Coroa. Pedro II de
Portugal, por alvará de 2 de Setembro de 1700, concedeu uma tença de 12.000
réis para manter constantemente acesa uma lâmpada de azeite diante do altar do
Senhor Santo Cristo. Foi ainda a irmã Anunciada quem organizou e instituiu a
procissão anual do Senhor Santo Cristo dos Milagres, com o apoio e a
colaboração da população.
Na actualidade, quando das festas em honra do Senhor Santo
Cristo, uma multidão acorre ao Campo de São Francisco e ao Convento da
Esperança que, por esta altura, assumem o papel de santuário, numa manifestação
de profunda devoção, fé e respeito. Além de se prestar homenagem à imagem do
Senhor, são pagas as promessas feitas.
Ao longo do restante do ano, a imagem encontra-se guardada
numa capela do convento, localizada em frente e em sentido oposto ao altar-mor
da igreja, separada da nave por um gradeamento.
O Senhor Santo Cristo dos Milagres
O Senhor Santo Cristo dos Milagres, popularmente referido
apenas como Senhor Santo Cristo ou Santo Cristo dos Milagres, é uma peça de
arte sacra cultuada no Convento de Nossa Senhora da Esperança, na cidade e
concelho de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, nos Açores.
Trata-se de uma imagem entalhada em madeira sob a forma de
relicário/sacrário,1 de autor desconhecido, em estilo renascentista,
representando o "Ecce Homo", isto é o episódio do martírio de Jesus
Cristo em que este é apresentado à multidão, na varanda do Pretório, acabado de
flagelar, de punhos atados e torso despido, com a coroa de espinhos e os ombros
cobertos pelo manto púrpura.
O evento está narrado em Lucas 23:1-25, no
episódio maior da Corte de Pilatos. O autor representou, com grande senso
artístico, o contraste entre a violência infligida ao corpo de Cristo (matéria)
e a serenidade do rosto, nomeadamente do olhar (espírito).
As festas em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres
realizam-se nos dias em torno do quinto domingo após a Páscoa, dia em que se
procede à grande procissão, terminando na quinta-feira da Ascensão.
Constituem
a maior e mais antiga devoção que se realiza no país, e que só encontra
paralelo com a devoção popular expressa no Santuário da Mãe Soberana, em Loulé,
e, a partir do século XX, nas celebrações em honra de Nossa Senhora de Fátima.
A devoção atrai, anualmente, milhares de açorianos e seus descendentes, de
todas as ilhas e do exterior, uma vez que é um momento escolhido por muitos
emigrantes para visitarem a sua terra natal.
Antecedentes
A documentação disponível atribui ao Papa Paulo III
(1534-1549) a oferta da imagem a religiosas que se terão deslocado a Roma no
sentido de obter uma Bula pontifícia que as autorizasse a instalar o primeiro
convento da ilha de São Miguel, na Caloura ou no Vale de Cabaços. Contudo, do
confronto de diversos documentos levanta-se a hipótese de tal doação poder ser
atribuída ao seu antecessor, o Papa Clemente VII (1523-1534).
Em virtude do Convento da Caloura, erguido sobre um rochedo
à beira-mar, se encontrar demasiado exposto aos ataques de piratas e corsários,
então abundantes nas águas do arquipélago, cedo as religiosas ter-se-ão
transferido para outros estabelecimentos religiosos, entretanto constituídos na
ilha: o Convento de Santo André, em Vila Franca do Campo, e o Convento de Nossa
Senhora da Esperança, em Ponta Delgada. Entre as que a este último se
dirigiram, refere-se o nome de Madre Inês de Santa Iria, uma religiosa oriunda
da Galiza, que levou consigo a imagem do "Ecce Homo" (1541), que lá
permanece até aos nossos dias.
Igreja do Senhor Santo Cristo - Ponta Delgada
A Igreja do Santo Cristo, ou de Nossa Senhora da Esperança ,
encontra-se integrada no conjunto conventual da Esperança, no coração da
deslumbrante cidade de Ponta Delgada, na maravilhosa Ilha de São Miguel, no
Arquipélago dos Açores.
O Convento e a Igreja datam do século XVI, tendo sofrido
alterações posteriores nos séculos XVII e XVIII, albergando a famosa Imagem do
Senhor Santo Cristo dos Milagres, apresentando um fabuloso conjunto de adereços
em ouro e pedras preciosas do século XVIII, e associada à maior festividade da
cidade.
Diz-se que as primeiras freiras que habitaram o Convento
trouxeram esta imagem, que terá sido ofertada pelo Papa Paulo III às freiras
que foram a Roma solicitar a bula de instituição do Convento de Vale de Cabaços,
cerca de 1530.
A Igreja apresenta um rico interior, profusamente decorado
de talha dourada, pinturas de Manuel Pinheiro Moreira e azulejaria do século
XVIII e outra mais recente.
O Convento da Esperança é também conhecido por ter sido no
muro exterior da sua cerca, num banco de jardim assinalado por uma âncora, que
em 1891 se suicidou o poeta Antero de Quental.
terça-feira, 7 de maio de 2013
A origem da devoção à Senhora dos Milagres - Serreta - Ilha Terceira
A origem da devoção à Senhora dos Milagres na Serreta
remonta aos finais do século XVII, quando o padre Isidro Fagundes Machado
(1651–1701) se considerou vítima de injusta perseguição e se refugiou no local
chamado Queimado, na região da actual Serreta.
Ali, então um dos mais remotos
trechos da ilha, ergueu, em cumprimento de um voto, uma pequena ermida, na qual
colocou uma pequena imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus (a actual imagem
de Nossa Senhora dos Milagres). Pedro de Merelim dá a seguinte versão da lenda
que passou a rodear a origem do culto:
"Um padre velhinho, boa e santa alma, vendo-se em
grande atribulação e desiludido do mundo, procurou um lugar ermo, onde, sem
mais ninguém, se pudesse entregar à contemplação das verdades eternas.
Seduziu-o
a Serreta, junta da rocha, a uma boa légua da igreja. Sítio tranquilo e
pitoresco, paisagens de arvoredos e fragas, bem próprio para escutar as vozes
da natureza entoando um hino à criação – e aí se quedou. Estaríamos no século
XVI.
Levava consigo uma pequena imagem da Virgem, para a qual, por suas mãos,
imperitas no ofício, edificou tosca capelinha, na Canada das Vinhas, Queimado,
em reconhecimento do milagre que lhe fizera de o livrar do perigo. E o
minúsculo templo serviu-lhe também de abrigo. As preclaras virtudes do
venerando sacerdote tiveram o condão de, ao lugar da Serreta, levar subido
número de pessoas.
Morto o humilde e solitário clérigo, a singela ermidinha
ficou abandonada, breve se arruinando. Outra se ergueu em local diferente. E esta
segunda, igualmente carecida de assistência, além de sujeita às irreverências
de alguns pseudo-romeiros, não terá oferecido por muito tempo as condições
indispensáveis ao culto, pelo que o prelado mandou recolher a imagem da Senhora
dos Milagres à paroquial de Doze Ribeiras."
Neste novo domicílio, a fama da imagem continuou a atrair
considerável devoção, passando a ser popularmente designada como Nossa Senhora
dos Milagres em resultado dos milagres que eram atribuídos à sua intercessão.
Igreja de Nossa Senhora dos Milagres (Serreta)
O primeiro compromisso para a construção de uma igreja na
Serreta data de 13 de Setembro de 1772, quando os irmãos da Confraria dos
Escravos de Nossa Senhora se congregaram nas Doze Ribeiras, em casa do
vice-vigário Miguel Coelho, para realizar a festa daquele ano. Assentaram na
ocasião que se deveria proceder à reedificação da antiga ermida da Virgem, no
lugar próprio da Serreta, ficando o padre Rogério José da Silva encarregue do
património e os irmãos com a obrigação de contribuírem para a obra. Dando o
exemplo, o então capitão-general dos Açores, D. Antão de Almada, abriu a
subscrição doando 50$000 réis do seu bolso.
Contudo, apesar do voto solene e da presença de tão ilustres
benfeitores, as obras da igreja não arrancaram e, em 1797, decorrido um quarto
de século da formulação do voto, nada se fizera. Bernardino José de Sena
Freitas afirma:
"Por motivos que nos são ignotos ainda vinte e cinco
anos depois daquela deliberação não estava reedificada a ermida, conservando-se
a imagem da Senhora dos Milagres na igreja de S. Jorge: e até parece que ou
esta devoção esfriara, ou a solenidade esteve interrupta por alguns anos; pois
no citado livro desta Irmandade não encontrámos assentos posteriores ao ano de
1782; até que no ano de 1797 se acha um outro voto, não só revalidando o
primeiro para perpetuidade da festa anual, começada em 1764, mas obrigando-se
os novos irmãos ao cumprimento do assento exarado em 1772, para que de feito se
levantasse uma nova ermida na Serreta para nela ser venerada a Senhora dos
Milagres."
Este novo fervor parece ter sido suscitado pelos ecos da
Revolução Francesa e pela nascente ameaça napoleónica, que prenunciava um clima
de guerra na Europa. A nível local, este enquadramento político traduzira-se na
determinação para que o capitão-general dos Açores procedesse ao recrutamento
de 5 000 jovens açorianos para reforçar o exército real, incumbindo-se desse
destacamento o sargento-mor de artilharia da Corte Maximiliano Augusto
Chermont. Este recrutamento, que espalhou o receio e a consternação nas ilhas,
foi justificado pela rainha D. Maria I de Portugal, em carta datada de 31 de
Outubro de 1796 e dirigida ao bispo e outras entidades oficiais, com a
necessidade de "conservar ilesa a dignidade do meu real trono, e salvar os
meus fiéis vassalos do risco, a que podem ficar sujeitas as suas vidas e
propriedades". Entretanto, nem os temores da população e nem o
envolvimento da nobreza angrense lograram o cumprimento do voto, e a construção
da igreja da Serreta continuou por arrancar.
A obra apenas foi principiada em 1819, por iniciativa do
general Francisco António de Araújo, então nomeado capitão-general dos Açores,
que para além da devoção à Senhora dos Milagres se apercebeu que o crescimento
populacional do lugar exigia templo próprio. Lançada solenemente a primeira
pedra, as paredes começaram a ser erguidas, estando a obra em curso quando o
mandato daquele capitão-general foi dado por terminado na sequência da nomeação
de Francisco de Borja Garção Stockler e da Revolução Liberal do Porto (1820). A
instabilidade política que se seguiu levou à paralisação da obra, que
permaneceu inacabada durante todo o período da Guerra Civil Portuguesa
(1828-1834).
Finalmente, depois de tantos contratempos, José Silvestre
Ribeiro, administrador do recém-criado Distrito de Angra do Heroísmo, assumiu a
necessidade de se concluir a nova igreja, reiniciando as obras, custeadas com
donativos e as esmolas vindos de todos os recantos terceirenses.
O templo, o terceiro na Serreta consagrado à Senhora dos
Milagres, ficou concluído em 1842, recebendo a imagem venerada após mais de um
século de permanência na igreja de São Jorge das Doze Ribeiras. Para tal, José
Silvestre Ribeiro oficiou ao cónego Manuel Correia de Ávila, ouvidor
eclesiástico de Angra, para se proceder à abertura ao culto da nova igreja. Sem
alçada para decidir, o ouvidor enviou o pedido ao bispo D. Frei Estêvão de
Jesus Maria, então residente na ilha de São Miguel devido ao seu apoio aos
miguelistas durante a guerra civil, que assentiu.
A bênção da nova igreja e a solene transladação da imagem
realizaram-se a 10 de Setembro daquele mesmo ano. A cerimónia foi presidida
pelo cónego Manuel Correia de Ávila. Segundo um testemunho da época,
"Jamais no meio de tanto sossego e prazer se praticou um acto tão solene e
tão pomposo. Milhares de pessoas concorreram de todas as partes da ilha àquele
lugar". O ponto alto foi a celebração da primeira missa, "que vários
curiosos cantaram a vozes e instrumentos", estando presentes o governador
civil José Silvestre Ribeiro e demais autoridades e pessoas de representação.
O novo templo, localizado no largo onde hoje se situa o
Império do Divino Espírito Santo da Serreta, do lado oposto da estrada em
relação à actual igreja, era de proporções modestas, com fachada virada para
leste (para terra) e torre à direita provida de dois sinos. No interior tinha
uma só nave, duas sacristias e outras tantas tribunas, uma das quais à direita
do altar-mor e outra sobre o guarda-vento.
Aberta a igreja, culto à Senhora dos Milagres cresceu
rapidamente, passando a atrair à Serreta grande número de forasteiros, nos
quais se incluía a melhor burguesia angrense, que, em carros de bois e
carroças, se deslocava até à localidade, hospedando-se nas casas ali
existentes. Em consequência, para além da vertente religiosa, as festas
ganharam uma parte profana que, naturalmente, incluía uma toirada à corda. A
primeira realizou-se na segunda-feira, 10 de Setembro de 1849, em complemento
do programa religioso e por iniciativa do mordomo daquele ano, o fidalgo João
Pereira Forjaz de Lacerda. A tradição das festas terem um mordomo da
aristocracia angrense, que as fazia a expensas suas, no espírito do voto de
Escravos de Nossa Senhora, perdurou pelo menos até ao ano de 1868, em que foi mordomo
o morgado João de Bettencourt Correia e Ávila, depois 1.º visconde de
Bettencourt.
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